Para
iniciarmos a discussão sobre a compressão espaço-temporal
que estamos vivendo podemos tomar como exemplo o chavão
da campanha publicitária da IBM - uma das mais importantes
empresas de informática do mundo - "soluções
para um mundo pequeno". Esse "encolhimento" progressivo,
resultante da superação de barreiras espaciais em
graus cada vez maiores, significaria a própria "supressão"
do espaço, em conseqüência do processo que torna
possível a transmissão de informações
em "tempo real".
Castells
argumenta que várias temporalidades subsistem, embora uma
esteja emergindo como determinante: a que ele chama de tempo intemporal,
próprio da estrutura de rede, onde passado e futuro se
fundem num eterno presente.
Essa noção de atemporalidade que situa os fatos
na Internet está ligada também à noção
de um espaço virtual onde as coisas acontecem e são
atualizadas, informações são divulgadas,
pessoas se comunicam, e tudo acontece sob um conceito de simultaneidade.
Segundo Pierre Lévy,
"A
noção de tempo real, inventada pelos informatas,
resume bem a característica principal, o espírito
da informática: a condensação no presente,
na operação em andamento. O conhecimento de tipo
operacional oferecido pela informática está em
tempo
real."
O jornalismo
acompanha este processo de subversão da temporalidade,
seguindo o caminho que já havia sido percorrido pela televisão
quando introduziu o culto ao "ao vivo".
"Se
a televisão assim se impôs, foi não só
porque ela apresenta um espetáculo, mas também
porque ela se tornou um meio de informação mais
rápido que os outros, tecnologicamente apta, desde o
fim dos anos 80, pelo sinal de satélites, a transmitir
imagens instantaneamente, à velocidade
da luz."
Além
da possibilidade de disponibilizar informações a
todo segundo, os sites noticiosos de publicações
impressas procuram aproveitar os recursos multimídia de
áudio e vídeo para enriquecer o conteúdo
e reiterar o conceito de tempo real - o que a televisão
e o rádio sempre conseguiram desempenhar melhor do que
os impressos. "Pela primeira vez os jornais vão poder
competir em igualdade com o rádio
e a TV."
O
impulso desta nova mídia é a velocidade. As informações
digitalizadas ocupam "pouco espaço" e assim podem
ser difundidas mais rapidamente. Segundo a jornalista e professora
de comunicação da UFF Sylvia Moretzhon, em sua dissertação
de mestrado A velocidade como fetiche, a base sobre a qual se
desenvolve a percepção de "aceleração
do tempo" repousa sobre a própria lógica do
capital. Ela explica como o desenvolvimento dos meios de produção
visa à aceleração e ao posterior lucro dos
produtores. Neste ambiente também podemos incluir a produção
de notícias e a evolução tecnológica
das máquinas que "formatam" o jornalismo.
Considerando-se
que, "se o dinheiro não tem um sentido independente
do tempo e do espaço, sempre é possível buscar
o lucro (...) alterando os modos de uso e definição
do tempo e do espaço", Harvey baseia-se no padrão
de circulação de capital para argumentar
:
"Há
um incentivo onipresente para a aceleração, por
parte de capitalistas individuais, do seu tempo de giro com
relação à média social, e para fazê-lo
de modo a promover uma tendência social na direção
de tempos médios de giros mais rápidos. (...)
O efeito geral é, portanto, colocar no centro da modernidade
capitalista a aceleração do ritmo dos processos
econômicos e, em conseqüência, da vida
social. (...)"
A aceleração na vida social propõe mudanças
na aceleração da produção de notícias,
que devem traduzir os acontecimentos do cotidiano. Foi assim com
os jornais impressos, com o rádio, com a televisão
e atualmente com a Internet. O desenvolvimento de novas tecnologias
implica não somente uma transformação do
formato da notícia mas também sua periodicidade.
Assim,
no jornalismo de Internet, não se pode falar exatamente
em periodicidade - fornecimento de informações em
intervalos regulares. A atualização das publicações
eletrônicas é feita de forma aleatória, de
acordo com o ritmo dos acontecimentos - e quão veloz é
esse ritmo em que vivemos... Este tipo de publicação
propõe-se a veicular "notícias" a todo
segundo, o que nos remete a uma prática antiga da concorrência
entre empresas de comunicação: o esforço
em mostrar os fatos em "primeira mão".
É
em torno dessa idéia de dinamismo que a imagem da atividade
jornalística se constrói. (...) Notícias
de última hora: tudo é urgência. É
a ideologia da velocidade e do progresso, no dizer de François
Brune:
"Toda
mobilidade é positiva: o mal maior é ser "ultrapassado".
A maioria das competições é à base
da velocidade, mas é em todos os domínios que
é preciso andar depressa, pensar rápido, viver
rápido (...)"
Diante
destes fatores pode-se dizer que a lógica de pensar uma
publicação eletrônica é completamente
diferente de uma publicação impressa diária,
semanal ou mensal. Há um comprometimento muito maior com
a velocidade na transmissão da informação.
Tais publicações apresentam, portanto, alguma semelhança
com agências de notícias, no sentido da periodicidade
da transmissão da informação.
5.Sylvia
Moretzhon, A velocidade como fetiche. Dissertação
de mestrado em Comunicação, Informação
e Imagem, 2000, cap.1 pag.25.
6.Manuel Castells, A era
da informação: economia, sociedade e cultura,vol.1
- A sociedade em rede. São Paulo, Paz & Terra, 1999,
p. 459
7.Pierre Lévy, As
tecnologias da Inteligência, coleção TRANS,
editora 34, 1993, cap. 2, p. 115
8.Ignacio Ramonet. op.cit., p. 26
9.Online papers and effective use of audio
online, by J.D.Lasica http://www.ajr.org
March 1999
10.Moretzhon, S. op.cit., cap.1 pag.22
11.David Harvey. Condição
Pós-Moderna. São Paulo, Loyloa, 1993, p. 209-210
12.Moretzhon , S. op.cit., cap.1, pág.
41
13.François Brune: "L'ideologie
d'aujourd'hui ", in: Manière de Voir (hors-série),
Le Monde Diplomatique, março de 1997, p.11
© Monique
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